CRYPTOGREEN

Nova criptomoeda é vinculada a créditos de carbono

Ideia é facilitar os negócios relacionados à compensação de emissões de gás de efeito estufa

Por Rafael Salomão

Dezembro 18/2019

Não é só da famosa Bitcoin que vive o mundo das criptomoedas, aquelas divisas virtuais negociadas no mercado financeiro. Há moedas voltadas para finalidades específicas. É o caso da Cryptogreen, lastreada em créditos de carbono, em que empresas e instituições buscam compensar suas emissões de gases de efeito estufa comprando os créditos de quem reduziu volumes emitidos.

“Uma empresa faz o seu inventário, descobre o quanto está emitindo e quer fazer uma compensação, mas não acha onde comprar o crédito de carbono. Para isso, foi criada a cryptogreen. Para a empresa poder comprar o crédito de carbono”, explica o CEO da empresa, Lúcio Pereira.

A cryptogreen chegou ao Brasil em meados de outubro. O mercado brasileiro foi o primeiro onde a moeda foi lançada. Desde o início das atividades, foi realizado o registro e a emissão de 2 bilhões de cryptogreens e colocado em negociação um lote de 50 milhões. A expectativa é ter a primeira emissão negociada dentro de três anos.

Segundo Lucio Pereira, atualmente, a moeda virtual tem sido negociada a valores médios de US$ 12 a unidade, que equivale a uma tonelada de CO2 equivalente, utilizado como referência para medir emissões de gases de efeito estufa. Os negócios são realizados via blockchain, por meio de uma plataforma específica.

O plano é expandir também para países da Europa e da Ásia, além dos Estados Unidos, em parceria com organizações e instituições ligadas à questão ambiental. As negociações no Brasil são viabilizadas por uma parceria com o Eu Preservo, que promove iniciativas de preservação das florestas. É o programa que certifica e contabiliza os créditos de carbono que servem de lastro para a moeda virtual.

“O Eu Preservo vai gerar o crédito de carbono e fornecer para a Cryptogreen, que vende no mercado e se torna um meio facilitador dessa negociação. Pegamos esse dinheiro, pagamos a Eu Preservo, que repassa para o proprietário”, explica Pereira. “Estamos iniciando com títulos de preservação florestal no Brasil”, acrescenta.

Atuando como uma plataforma de negociações com a moeda virtual verde no mercado, a Cryptogreen coloca sua margem sobre cada transação e tira seu lucro com o spread, a diferença entre o valor da operação de compra e a de venda, menos o custo operacional.

“A cryptogreen é privada e com fins lucrativos. Tem que ser assim para captar recursos no mercado e incentivar os proprietários de floresta a não desmatar e receber por isso”, argumenta Pereira.

Lucio Pereira conta que a ideia da criptomoeda se baseou no chamado mercado voluntário de créditos de carbono. É aquele em que a empresa ou instituição não se vê obrigada a preservar uma floresta, mas tem uma visão de responsabilidade ambiental. A alternativa, então, seria comprar os créditos.

“Queremos colocar esses créditos em lastro para ter uma visibilidade mundial e possibilitar que empresas comprem de uma maneira mais rápida e simples”, diz ele.

Pensando no agronegócio, o executivo cita o exemplo de um fazendeiro que analisa a possibilidade de abrir uma área de vegetação para produção agropecuária. Uma forma de mantê-la preservada seria receber por isso, um pagamento pelo serviço ambiental. A ideia da Cryptogreen, afirma Pereira, é facilitar essa negociação.

Pereira explica que, quando o proprietário assina o contrato, o Eu Preservo faz um monitoramento da área preservada que hoje não gera renda para gerar os créditos. O dono da área, então, aguarda pelo período necessário para a certificação, que leva em torno de um ano. A partir daí, está apto a receber os pagamentos pela vegetação mantida, que são feitos a cada período de 13 meses.

“Um programa como esse junto com uma criptomoeda é um meio inteligente de captar dinheiro para beneficiar os proprietários que estão preservando”, argumenta o executivo. “Nossa ideia é incentivar o agricultor, o pecuarista a ter renda com a preservação substituindo a que ele teria pensando em abrir uma área”, acrescenta.

Lucio Pereira diz ainda que o potencial de negociação de créditos de carbono de uma propriedade rural não está associado apenas à parte que o proprietário poderia abrir para a produção. Pode ser incluído também o que é obrigatório por lei, como Reserva Legal (RL) e Área de Preservação Permanente (APP).

Isso é possível porque o sistema de negociação de créditos é diferente do de compensação bioma, previsto no Código Florestal. Um não conflita com o outro. “O crédito de carbono é um ativo intangível, que pode valer em toda a área. Quando o produtor colocar a área dele no programa, além do compromisso com o Código Florestal, ele terá um segundo compromisso com um contrato comercial”, afirma.